sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O Lado Bom da Vida

Por que agradou tanta gente?
Não é um filme espetacular, não é dotado de grandes sacadas e pode muito bem cair no gênero da comédia romântica rotineira, mas encanta bastante e te diverte de uma maneira inesperada. Parece ser uma história sobre doenças mentais, pessoas descontroladas, vidas sendo desfeitas por conta dessas condições, mas não é.


Uma comédia diferente, que provoca risos nervosos, romântica sem ser cansativa.

É sobre Pat um marmanjão de 34 anos, dependente e tutelado judicialmente, que vai morar com os pais depois de um casamento desfeito.
Sua estratégia principal é o chamado Pensamento Mágico: através de certos mantras motivacionais cognitivos,  acha que conseguirá se reerguer e reconquistar a ex-mulher (a quem está impedido de procurar por uma ordem de restrição).

E sobre Tiffany, que após ficar precocemente viúva, preocupa a família com surtos de ninfomania, tendo que se submeter também à terapia intensiva. 




Fica fácil gostar de um filme onde a primeira impressão é achar que todo mundo do lado de lá da tela é bastante maluco e no sense. 
Somos capazes de rir e sentir pena da desgraça desses pobres coitados.
Sem percebermos, usamos a história do filme como um alívio de nossas próprias angustias (bem parecido com a insistência que observamos em crianças mais novas em assistirem desenhos violentos e cenas desastrosas na televisão ou nos jogos de computador) produzindo assim um apaziguamento na nossa violência interna de cada dia.




Hollywood está mudando. Cansou de pregar os finais felizes.
Agora tenta mostrar com um humor inteligente, meio ácido, que até em provas de competições de dança, uma nota 5 é ótimo!
Não é a perfeição que possui a beleza. Nem ganhar todos os concursos. Mas competir. Participar. E principalmente achando um parceiro que mesmo com suas loucurices e falhas tope ficar ali do seu lado aprendendo novos passos, negociando novas vitórias.


Tudo o que a dupla Pat e Tiffany procura é uma estratégia eficaz para viver neste lugar maluco chamado realidade.

Em O Lado Bom da Vida, o diretor David O. Russell faz do termo "excelsior" seu estandarte, e transforma drama em comédia com perfeição.

Aponta que, mesmo quando as personagens parecem perdidas e sem o controle de sua vida, se esforçam ao máximo para continuarem no ballet doido (ou doído) que é estar vivo.



quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Download da própria existência.



Envelhecer é um privilégio, e a maioria acha que é um castigo.  O Exótico Hotel Marigold reúne um elenco maduro com muita cor, sensibilidade e humor britânico, pra contar essa história direito.


Einstein, quando perguntado sobre suas motivações para a pesquisa, afirmava que a emoção mais profunda é inspirada pelo senso do mistério:
"a existência de algo que nós não conseguimos penetrar da beleza radiante do mundo a nossa volta, acessíveis a nossa mente apenas em suas formas mais primitivas, esta é a emoção fundamental que inspira a arte e a verdadeira ciência."
Freud se encarregou de outro mistério, o da beleza e magia dos processos da nossa mente, de um mundo interior. 

Ambos, Einstein e Freud, cada qual a sua maneira, romperam com séculos de verdades estabelecidas, deixando claro que somos muito menos senhores do que supúnhamos, tanto da natureza quanto de nossas ações. 


As vezes precisamos cair em algumas situações, onde os contrastes do lugar podem ser tão gritantes,  os limites dos nossos gostos esbarram em tanta novidade, que as transformações são inevitáveis. 



É interessante pensar que as vezes precisamos ir para um outro país, falar uma outra língua, se sentir um estrangeiro e passar por experiências extremas para que finalmente alguma coragem apareça magicamente dentro de nós.
Sutilezas do dia-a-dia são apreciadas raramente.


Será que é tempo
Que lhe falta pra perceber ?
Será que temos esse tempo
Pra perder?
E quem quer saber ?
A vida é tão rara
Tão rara...
(Lenine)




Lanço a pergunta: Pra que esperar chegar a terceira idade para começarmos a refletir sobre felicidade, rabugices, comodidade, verdades absolutas?
Qualquer pessoa, a qualquer momento, em qualquer lugar do mundo, pode olhar através de outro ponto de vista, outra perspectiva.
A personagem Evelyn se pergunta quase no fim do filme, "Qual o propósito do casamento se nada é compartilhado?"
Estar com o outro, seja no amor, na amizade, na família, no trabalho, tem que ser de forma autêntica, verdadeira.
Quando Bion fala em aproximar-se mais da realidade, trata-se (acho eu) desta verdade pessoal a ser revelada/constituída mediante o próprio trabalho do pensar.



O coração do filme está alojado em dois personagens opostos: aquele que mais abraça sua nova moradia, e que é menos alterado por ela, e aquela que mais é lançada para fora de sua zona de conforto: Graham e Muriel, interpretados magistralmente por, Tom Wilkinson e Maggie Smith. 
Ambos precisavam dessa viagem imensamente para entrarem novamente em contato com os seus passados, no caso de Graham, o amor, e no caso de Muriel, seu propósito de viver, cuidar de alguém e se sentir necessária. Assistir à queda de cada muro, cada defesa de Muriel é fascinante, perceber o calor humano vencendo as geleiras do preconceito e da raiva, por si só já vale o filme.


terça-feira, 23 de outubro de 2012

Mas eis que chega a roda viva e carrega o destino prá lá ...


O título em francês vem da expressão “le mettre dans sa poche avec son mouchoir par dessus” (colocar no bolso com seu lenço por cima),  que significa botar um ponto final em alguma coisa, esquecê-la, não pensar mais nela. 


Les Petits Mouchoirs, com seus personagens carismáticos, nos envolve com os dramas encobertos pelos pequenos lenços, ou seja, os relacionamentos e o modo como estes vão tomando devidas proporções na medida em que cada um alimenta e/ou esconde as próprias expectativas sobre seus sentimentos e sobre a vida.



Les Petits Mouchoirs, com Guilles Lellouche.



Quem nunca imaginou que a própria trupe de amigos trintões, cada um com seus anseios, relações amorosas e conflituosas, daria um filme? Eu já.

É bem fácil a identificação com os personagens de Les Petits Mouchoirs, quando se colocam em situações bastante comuns: jantares com muitas garrafas de vinho, todos ao redor de uma mesa conversando, rindo. Algumas vezes, parecem falar apenas palavras vazias - outras vezes, conseguem dizer o que realmente pensam e sentem.
Aos poucos as neuroses vão sendo reveladas, e as pequenas máscaras que carregam, não conseguem mais esconder a insegurança de cada um. 





No filme, esses jovens franceses são visivelmente sedentos de amor e não conseguem enfrentar temas difíceis como: separação, morte, solidão, mas  sabem desfrutar dos momentos bons da vida. 


A partir da observação deste grupo de amigos, Guillaume Canet está falando de si mesmo. O diretor parece ter uma visão bem realista e nada romântica em relação aos anseios da sua geração. 



Ao contrário dos seus predecessores que viveram os conturbados anos 60, os quarentões dos anos 2010 não estão lá muito interessados em lutar por algum ideal (se é que ele existe) ou chorar pelos sonhos da adolescência não atingidos. 

Os tempos atuais são outros. Em vez do discurso político, da efervescência cultural e ideológica, a sociedade dos dias de hoje parece mais preocupada com a necessidade de fazer dinheiro e a busca pelo prazer a todo custo. A insignificância dos problemas dos personagens parece conter um recado de Canet: 

O mundo tornou-se menos contestador e mais pragmático.



Se o caldeirão de conflitos a certa altura da narrativa passa a incomodar, com certeza não é porque o filme já dura duas horas e meia, muito menos porque as loucuras dos amigos lá da tela são absolutamente banais, corriqueiras, ou só  interessam àquele grupo de pessoas.
Não. Se incomoda é porque pegou na veia. 



As similaridades com a história contada estampam uma radiografia da nossa geração. 

Não é uma simples ode à amizade. 

Mas sim um olhar atento, às vezes até cruel, sobre o nosso narcisismo, hedonismo, culpas e desejos. Não é fácil tolerar aquele grupo se divertindo, à luz do sol e à beira mar, em contraponto com o trágico evento que eles testemunharam dias antes de pegar as malas. A dor vem da identificação com aqueles que tamponam as próprias dores e sentimentos e fazem de tudo para ficar bem longe da realidade.



segunda-feira, 22 de outubro de 2012

verbo (to dog): perseguir, seguir como um cão, juntar-se a.


Dois filmes bem complementares, co-incidentes, Dogville e Straw Dogs.


Existem filmes que podem ser considerados maravilhosos por fazerem você sair do cinema com a boca amarga? 
Sim. Lars Von Trier consegue fazer isso muito bem e por muitas vezes.


"Você acha que ajudando as pessoas você está sendo boa? Isso é arrogância."

Grace em inglês quer dizer graça. 
No início do filme Tom diz que a cidade precisa de um presente. Em inglês, presente é gift. Gift também pode ser traduzido como dom. 
Grace é o dom, a graça, recebida por Dogville. 
É um teste divino. Ela altera a vida besta do lugarejo. Primeiro, alegra a vida de todos, depois as complica e finalmente é sacrificada para que a comunidade se mantenha coesa. Diante do testemunho que presta frente ao conjunto dos moradores, descrevendo as mesquinharias, violências e intrigas de cada um, o efeito é unir todos contra ela. Se não o fizessem, seriam obrigados a se separar. 
A comunidade acabaria. 


O filme de Lars Von Trier nos escandaliza porque traduz uma sociedade hipócrita em que somos inseridos quase que naturalmente, e o filme fica bastante impalatável, quando encena o mundo que é construído com nossa covardia. 
Nós somos Dogville. 


A impotência, o cultivo de nossas frustrações e nossos medos, os desejos de vingança escondidos, a repressão dos sentimentos.
No lugar do sentir:  uma boa pitada de boas maneiras. 
No silêncio da nossa falsa bondade, esboçando aquele sorriso de enganadores, nos apropriamos, abusamos e violentamos a primeira Grace que aparece em nossas vidas. 

Trier escancara tudo isso em um filme com formato de teatro. Joga lentamente na tela amarelada a pergunta:

Como saber quem é mais arrogante?

Do ponto de vista de um cão, não importa se quem lhe é superior é humano ou divino. Se conseguirmos superar as relações de dominação ainda ficaremos nós, sem cão e sem Deus, com a já enorme complicação de sermos apenas humanos. 






Tanto na versão original, com Dustin Hoffman, no início dos anos 70, assim como na versão repaginada do ano passado, Sob o domínio do Medo é sempre atual. 
A violência é explícita, os sentimentos são contidos.
Essa crueza dos personagens que incomoda tanto, machuca os olhos de quem assiste aquilo tudo numa sala escura.

O filme começa do alto para baixo, ou seja, como se alguém estivesse observando os fatos de um  lugar privilegiado, dos céus. Justifica o título original: Cães de Palha - Straw Dogs baseado na filosofia do chinês Lao-Tzu :

Nos antigos rituais chineses, cachorros de palha eram usados como oferendas para os deuses. Durante o ritual, eram tratados com a mais profunda referência. Quando terminava, e não sendo mais necessários, eram pisoteados e jogados fora: “Céu e terra não tem atributos e não estabelecem diferenças: tratam as pessoas como cachorros de palha.”  Se os humanos perturbarem o equilíbrio da Terra, serão pisoteados e jogados fora.




Insuportável para muita gente, são os filmes que fazem pensar: 
sobre as fraquezas humanas, os limites da inveja, as provocações que desorganizam o que aparentemente está funcionando bem.




sábado, 23 de junho de 2012

O truque, meu caro Potter, é NÃO ignorar a dor.


Prometheus - o filme, é uma referência óbvia ao titã da mitologia grega que quis roubar o conhecimento dos deuses para entregá-lo aos homens e foi castigado por isso. 



Só porque nos deu de presente o fogo, o pobre coitado foi amarrado a uma pedra, enquanto uma ave lhe abria a barriga e devorava seu fígado, repetidamente, dia após dia, ad infinitum.


O simbolismo do roubo do fogo é vasto. O efeito imediato da ação prometéica é o deslocamento do homem de seu estado  natural a uma desacomodação. O homem vivia no escuro e é despertado para a luz. É lhe oferecido o fogo da consciência e da criatividade, que provocará a evolução ininterrupta da raça humana. Com a habilidade de manipular o fogo, o homem descobriu-se poderoso, experimentando o novo, juntando e  ampliando seus recursos com o que aprendia.

O homem civilizado não mais se contentou com seu estado primitivo, ele passou a transformar o cru em cozido – o cru equivalendo àquilo que irrompe de seu ser sem reflexão e o cozido, o resultado do matutar de suas idéias, de suas conjecturas, de sua criatividade, da destruição do velho e do nascimento do novo. Desta forma, o roubo do fogo por Prometeu e sua concessão aos mortais transformou-se na principal dádiva à humanidade –  a consciência criativa.
Nossa primeira tecnologia, o fogo.
Mil anos antes de Cristo, as ferramentas de pedras.
Quatro mil anos a.C. inventamos a roda.
Século 9 d.C. surgimento da pólvora.
Século 19, a lâmpada.
Século XX temos o automóvel, a televisão, armas nucleares, naves espaciais, internet. 
Século 21 biotecnologia, nanotecnologia, fusão e futuramente a previsão é criar indivíduos cibernéticos tão per-feitos, semelhantes a nossa natureza.


E é onde entra a brincadeira de Ridley Scott.
Ele nos presenteia com sua ficção, a fantasia da busca pela gênese humana e embora Prometheus aborde supostas origens extraterrestres, é com muita sutileza que nos fala sobre crenças, maternidade, origens, finitude. Nos alerta que criar novas formas de vida é perigoso. E que mesmo inteligências capazes de criar vida complexa cometem erros fatais.


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Terras de ninguém

 Bancar o turista ou viajante o tempo todo, pode ser cansativo. Ou usar aquela máxima "precisamos nos deslocar para nos encontramos" pode ser uma armadilha.

Somos fascinados por enigmas, pelo desconhecido, nossa vontade de ver "se a grama do vizinho é mais verde mesmo" é uma encomenda para a insatisfação.

Existem histórias muito bem contadas, em filmes ou livros, que nos alertam sobre essa busca sem fim (ou sem rumo) do sentido, e se prestarmos bastante atenção, podemos chegar à conclusão que perdemos muito tempo olhando o que está do lado de fora.


Bowles, escritor e viajante norte-americano, foi mestre em criar personagens que nos apresentam a diferença fundamental, sob o Céu que nos Protege, entre viajante e turista: Enquanto o turista geralmente volta depressa para casa, ao fim de algumas semanas ou meses,  o viajante se desloca devagar, ao longo de anos, de uma parte da terra a outra.


Existe aí um risco: o de se tornar um eterno estrangeiro.

Retomando os ensinamentos de Lévi-Strauss, vale mencionar o que afirma o antropólogo Maurizio Bettini: “Terrível condição, aquela do estrangeiro que, em meio à gente diversa e em uma terra que não é a sua, perdeu o contato com a sua própria identidade. Se antes recordava intensamente a sua terra, agora não a recorda em absoluto, já nem sabe mais qual é…”
O estranhamento sofrido pelos protagonistas de Bowles, em termos de vertigem, “opressora sensação de irrealidade”, vazio da existência são, nesse sentido, estrangeiros que sofrem, aos poucos, uma total desintegração do eu.


A geração beat, por sua vez, reproduzia e metaforizava através de sua literatura a vontade de liberdade, assim como o jazz mostrava na música que transgredir regras e ter a expressão a qualquer custo nas décadas de 50 e 60 era o grito de guerra contra as hipocrisias da época.


Into de Wild, filme realizado a partir de um diário, de Christopher McCandless, um jovem, idealista, onipotente, que se embriagou com a Natureza, e recém-formado resolveu abandonar tudo e todos, atravessando os Estados Unidos até chegar ao inóspito Alasca. Lá descobre que a felicidade só existe de fato se for compartilhada!
No caso dele, o rio subiu, a natureza vetou sua volta pra casa.

E você, quão longe precisou ir para encontrar o que precisava? Quais foram as situações do mundo externo que te conduziram para uma ação satisfatória? Quantas vezes se sentiu pleno e satisfeito com as escolhas que fez?

Quando Bion fala em aproximar-se mais da realidade, trata-se de uma jornada em busca da verdade pessoal a ser revelada/constituída mediante o próprio trabalho do pensar.
É essa grande aventura: modificar-se interiormente através da elaboração psíquica. E é a viagem mais difícil, contra a qual resistimos, por natureza.

Tomar consciência implica em um movimento de distanciamento, em uma idéia de domínio, de captura, de posse, como nas expressões de guerra tomar uma cidade, que tem como conseqüência passar a governá-la. Tomar consciência chama, convoca inevitavelmente todas as metáforas do olhar. A tomada de consciência de uma realidade realizaria um movimento de libertação frente a esta realidade. Tomar consciência de seu passado, de suas motivações, de suas fantasias, seria não ser mais escravo deles, mantê-los à distancia, a distância que é considerada como sendo a distancia do olhar. A tomada de consciência seria este movimento de ruptura que instaura um espaço capaz de tornar possível o ato de ver.








segunda-feira, 19 de março de 2012

Shame?


Diretores consagrados que sabem contar histórias, através da sua arte e olhar peculiar, geralmente acabam em trilogias.
Kieslowski  com as cores (Bleu, Blanc e Rouge), Kar-wai com a ajuda do fiel escudeiro e ator Tony Leung nos contos do amor poético/ não correspondido (Amores Expressos (94), Anjos Caídos (95) e Felizes Juntos (97) .
Coppola com a trilogia dos chefões da máfia e Antonioni com a trinca nada básica da alienação (L'avventura (1960) La notte (61) e L'eclisse (62).

Steve McQueen é o próximo da lista.



Em Shame, o corpo é a fonte de vergonha que abala o cotidiano de Brandon, um homem viciado em sexo e solidão. A maneira como McQueen constrói seu personagem, sem muitas explicações psicológicas nem contextualizações, é típica de seus procedimentos narrativos. Suas melhores cenas são aquelas sem diálogo, como a paquera no metrô que abre o filme – um contato sexual que progride pelos olhares e meios sorrisos. 
Fassbender, o ator escolhido, é uma mistura de Daniel Day-Lewis e Ewan McGregor, dividindo a semelhança física com a intensidade na hora de atuar. 



A impressão de enclausuramento e mal-estar que prevalecia em Hunger (primeiro filme da série), todo ele filmado em celas e corredores de um set-presídio, aparece também em Shame, embora este se passe em ruas, prédios e principalmente no metrô de Nova York. 
Mas é uma Nova York  descolorida e depressiva, muito bem expressa na maneira como Sissy (Carey Mulligan), a irmã autodestrutiva de Brandon, que canta New York, New York num clube noturno, num tom mais melancólico e profundo nunca ouvido antes.


Comece a espalhar a notícia,
estou partindo hoje
Eu quero ser parte de
Nova Iorque, Nova Iorque

Estes sapatos vagabundos
Estão querendo passear
Direto pelo coração de
Nova Iorque, Nova Iorque

Eu quero acordar numa cidade
Que nunca dorme
E descobrir que sou o rei do pedaço
O maioral

Esta melancolia de cidadezinha
Está se derretendo
Eu terei um novo começo
Na velha Nova Iorque


Prestando atenção na letra, entendemos melhor as lágrimas de Brandon. E começamos a perceber que Shame não é um filme fácil de se ver.  Não é um filme que você simplesmente “enjoy”. Não existe humor, não tem alívio, não dá pra sentar num boteco logo na saída e comentar com os amigos.


Críticos & psicanalistas poderão apontar vínculos entre as relações que Brandon estabelece (ou tenta estabelecer) com parceiras de todo tipo e o laço neurótico e possivelmente traumático entre ele e a irmã. Mas as pistas que McQueen deixa pelo caminho são tênues e vagas. O que lhe interessa é sobretudo usar o cinema como uma espécie de espelho deformante, mas que assim mesmo restitui uma verdade mais profunda sobre os corpos que reflete. 


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O heroísmo solitário

Alguém que dá a sua vida por algo maior ou diferente dele mesmo é considerado um herói.

Na infância, quando precisamos abandonar a condição de ser criança, para nos tornarmos adultos, é como se deixasse morrer essa personalidade infantil e criar uma abertura para que um adulto responsável viva em seu lugar. A maioria de nós passa por esse ato de heroísmo, quando nos livramos de uma dependencia psicologica e assumimos a nossa própria autonomia.

Isso requer uma morte e uma ressurreição. 

E esse é o tema básico da jornada do héroi: abandonar uma condição, encontrar a fonte da vida e chegar a uma condição diferente, mais rica, mais madura.

Então mesmo não sendo hérois no sentido grandioso de redimir a sociedade, empreendemos essa jornada espiritual, psicologica dentro de nós mesmos.

Todos nós somos heróis ao nascer, quando enfrentamos uma tremenda transformação, tanto psicológica quanto física, deixando a condição de criaturas aquáticas, vivendo no fluido amniótico, para assumirmos, daí por diante, a condição de mamíferos que respiram o oxigênio do ar, e que, mais tarde, precisarão erguer-se sobre os próprios pés. Esta é uma enorme transformação, e certamente, um ato heróico, caso fosse praticado conscientemente. 
Superpoder é um termo para indicar habilidade sobre-humana. Na cultura popular, pode ser usado para descrever as características de um herói.
Pode incluir capacidades de projeção de vôo, visões de raio-x, campos de força, invulnerabilidade, telepatia, telecinese, teletransporte, super-velocidade ou controle do tempo.

O verdadeiro herói é aquele que possui a capacidade de ficar a sós, de apagar a luz, de calar a voz.

O verdadeiro guerreiro, pra encontrar a paz, precisa folgar os nós dos sapatos, da gravata dos desejos, dos receios.

E os super-poderes que precisamos usar todos os dias são os de esquecer a data, perder a conta, ter as mãos vazias e ao invés de capas e escudos, ter a alma e o corpo nus.(*)

                                                                                                                        * Gilberto Gil


Bastante Sentido


Fugimos dela. Da emoção. Como quem foge de uma praga, peste, epidemia.
A emoção é torcida e distorcida a todo momento para não sabermos direito se ela está lá.


É muito imediato a gente se dar conta que perdeu o olfato, visão, paladar, visão, tato e nos preocupamos em recuperar esses sentidos, na pior das hipóteses, nos adaptamos.  
Ao contrário, não percebemos quando perdemos por exemplo a razão. Demora para cair a ficha.
Os sentimentos são mais sutis que os sentidos e nem por isso agem separados.
Quantas vezes já ficou surdo de raiva, ou mudo de medo. Ou ainda cego de amor?


As epidemias acontecem no âmbito emocional também e não percebemos:
Os modelos de relacionamento que contaminam uma, duas, sei lá quantas gerações.
As técnicas de assepsia que procuramos ter quando as novidades chegam até nós.
Quando a ausência do outro é um alívio, e portanto nossos bunkers protetores cheios de comida, bebida, livros, roupas, carros, tecnologia e o resto das coisas que ficam congestionando a passagem daquele que realmente pode chegar até você.



Seria interessante se quem assistisse um filme do tipo Perfect Sense pudesse mudar (a tempo) o jeito de viver e se boicotar menos, dando chance pra usufruir mais dos sentidos e dos sentimentos que estão por aí todos os dias nos rondando e talvez por isso nem percebemos direito a vida que vai passando enquanto estamos preocupados demais com todo o resto.



Amor, Ódio, Reparação e Lisbeth Salander.

Lisbeth Salander é andrógina, miúda e parece anoréxica – “é metabólico, não engordo”, diz no filme americano. Come junk food, fuma um cigarro atrás do outro, circula pela noite underground. Parece frágil, mas é forte. E se vinga. É marcada – e faz marcas. Sem confiar na lei e no Estado, faz justiça na ilegalidade e nas margens. Para ela, esses limites não existem, o mundo não se coloca mais nesses termos. Todas essas convenções, no olhar e na experiência de Lisbeth, já apodreceram. Em sua moto pelas estradas – ou escondida sob o seu capuz – ela talvez seja a nova mulher, aquela que se recusa a ser vítima, mas que jamais queimará sutiãs em praça pública. Salander é a nova mulher na medida em que também é o novo homem.

“ser e não ser”, ao mesmo tempo, é o único modo possível de existir.

Para Lisbeth, a única saída possível é individual. Ela é um rato resistente, sobrevivendo nos porões e roendo os alicerces da cidade, na mais absoluta solidão existencial. Ela é uma hacker – e o único movimento coletivo possível é aquele onde os indivíduos não sentem o cheiro da pele um do outro, cada um seguro na sua toca.


A outra face essencial de Lisbeth é o não pertencimento. Estrangeira em um mundo sem fronteiras, o conceito de nação não faz parte do planeta dela. Lisbeth é mais familiarizada – e a escolha do termo é proposital – com o hacker sem nome de lugar nenhum do que com o vizinho de porta. Lisbeth não tem chaves – tem senhas. Estar em Estocolmo ou em Pequim, para ela tanto faz. Ela não é estrangeira por pertencer a um outro país, ela é estrangeira como um ser em si. Ela é estrangeira diante do outro – ou de quase todos os outros – porque o olhar do outro para ela não faz a menor diferença. Ela não reconhece esse olhar, estrangeira que é frente à sua própria espécie. Ser estrangeira, para Lisbeth, é parte da nova condição humana.




Com uma profunda e justificada desconfiança dos homens – a começar pelo próprio pai – e com uma profunda pena das mulheres – a começar pela própria mãe –, Lisbeth Salander cria um homem e uma mulher, um nem homem nem mulher para si. Radical em sua androginia, Lisbeth poderia ser definida como uma bissexual, não fosse esta uma definição superada e que já não dá mais conta da complexidade da sexualidade humana.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Precisamos falar.








We Need to Talk About Kevin, no original em inglês é um romance de ficção publicado em 2003, escrito por Lionel Shriver, adaptado para o cinema pela realizadora escocesa Lynne Ramsay. 

Shriver avisa: a maternidade pode destruir sua vida.


A personagem Eva Khatchadourian (Tilda Swinton) era uma viajante, uma mulher livre, e sua vida parecia plena mesmo sem sentir o chamado do instinto materno. Mas por amor ao marido, que desejava ser pai, e iludida com a idéia de que estaria embarcando em mais uma aventura, resolveu engravidar.

Ganhar um filho é perder-se do mundo conhecido.

Logo de cara, na primeira cena (mais uterina, impossível), vemos Eva-Tilda feliz da vida, sendo carregada em plena La Tomatina, uma das festas mais conhecidas internacionalmente, realizada na Espanha, totalmente entregue à experiência, de braços abertos a la Jesus Cristo.
Ela tinha razão, a maternidade pode ser uma viagem fantástica, mas só descobrimos o quanto de neuroses que carregamos na mala quando já tivermos chegado ao destino. 

Uma vez nascido, o bebê Kevin foi visto pela mãe como possuindo uma personalidade própria, pré-existente, e destinada a se desencontrar com a dela. Desde o começo estabeleceu-se um duelo de subjetividades, uma tensão entre diferentes. Ele rejeitava seu leite, cujo sabor não suportava, sequer na mamadeira que tomava exclusivamente no colo do pai, chorava de forma incessante, alheio ao conforto de seus braços. As intermináveis gritarias de cólica pareciam ser exclusivamente para sua mãe, pois cessavam no instante em que o pai entrava em casa, e Eva via nisso uma intencionalidade maligna contra si.



Eva e Kevin terminam vivendo um para o outro, continuando sua simbiose às avessas, dedicando-se e odiando-se mútua e intensamente.

No livro, cada fiapo do tecido da ambivalência do amor materno é rastreado, assim como as contradições entre a maternidade e a liberdade das mulheres.

No filme não fica claro quanto à profissão de Eva, que também é metáfora de seu modo de vincular-se: para escrever seus guias de viagem, ela investiga formas, lugares e dicas para que as pessoas possam circular pelo mundo gastando pouco e incomodando-se o menos possível. 
Viajando, andamos por lugares em que ninguém nos conhece, onde nada se espera de nós e procuramos extrair o máximo de prazer da forma menos dispendiosa possível. Eva conseguia viver assim, mas não havia jeito de ser mãe com esses critérios.

Na visão do pai, Kevin cumpria o papel social do filho, era um cenário, independente de quem ele fosse, enquanto Eva faria o da mãe, apesar de quem ela havia sido. 

Também não é mostrado no filme: Em negociação com o marido, Eva decide se o filho fosse menino, ele teria o pré-nome escolhido pelo pai e carregaria o sobrenome materno, Katchadourian, que é de origem armênio. Ela argumentou que seu povo foi cruelmente massacrado e por isso mereceria ser homenageado com a nomeação de seu filho.

A característica da negociação entre os pais de Kevin a respeito de seu nome determinou que ele tivesse que apegar-se a algum traço, de preferência materno, para fazer-se elo, conexão, entre uma origem, uma família, o passado de um povo, e um projeto de futuro, o seu futuro. Kevin é filho de um pai-cenário e uma mãe-viajante, entre eles não há síntese.

Para delinear um papel na vida, para fazer seus planos, um filho inspira-se em suas origens. Ele pode fazer isso a partir daquilo que orgulha ou mesmo do que envergonha a seus pais e antepassados, pode tomar essa base para continuá-la ou para romper com ela, mas sua família sempre cumpre algum papel. Será melhor se isso lhe for transmitido de alguma forma explícita, senão tentará fazer sua versão, fazer-se elo de uma linhagem de algum jeito, não necessariamente de forma patética como Kevin.

A recusa de uma mulher à maternidade parece ser a ameaça visível à continuidade das famílias e o livro de Shriver é um exemplo das fantasias geradas por esse medo, do quanto isso soa ameaçador e teme-se que custe caro para a mulher e para a sociedade.